Convido os leitores deste blog a mudar um pouco de foco; a economia e a política são sem dúvida importantíssimas, mas mais elevada que ambas é a filosofia. É a uma questão filosófica que nos dedicaremos. Não a uma questão qualquer, de importância menor, mas a uma das mais importantes que há: “a verdade existe?”. As duas possíveis respostas a essa pergunta fundamental (“sim” ou “não”) dão origem a visões de mundo tão absolutamente opostas que entre elas nenhum compromisso é possível, e por isso estão destinadas à constante guerra intelectual.
Nos dias de hoje não é incomum responder-se à pergunta na negativa. Na minha própria faculdade, dois professores já declararam que “a verdade não existe”. Com todo respeito a eles, não é uma posição muito forte, pois para refutá-la basta uma mera pergunta. Sim, a tese “a verdade não existe” é demolida com esta singela interrogativa: “isso é verdade?”. De duas, uma: ou a tese “a verdade não existe” é falsa, e nesse caso pode-se concluir seu oposto (“a verdade existe”), ou então ela é verdadeira. Mas se a tese é verdadeira, então algo é verdadeiro (a própria tese), e portanto a verdade existe! A afirmação “a verdade não existe” prova que a verdade existe. Nossos próprios adversários lutam involuntariamente em nosso favor; mas não se dão por vencidos facilmente. Assim que sua defesa é destruída, mudam logo de estratégia.
Muito bem, concordariam, a verdade de fato existe. Existe, mas é relativa. “Toda verdade é relativa”, ou seja, nada é absolutamente verdadeiro, nada é sempre verdadeiro. Não se espantem, leitores, mas essa nova tese, essa nova ofensiva contra a verdade absoluta, é tão forte quanto a anterior: também é refutada com uma pergunta. “Toda verdade é relativa”, afirma-se; pergunta-se, então, “essa tese é uma verdade absoluta ou relativa?”. Novamente, duas respostas são possíveis: a tese “toda verdade é relativa” pode ser uma verdade absoluta, e portanto existe uma verdade absoluta (a própria tese), e portanto nem toda verdade é relativa; alternativamente, a tese pode ser uma verdade relativa. Nesse caso, ela não é sempre verdadeira, não é verdadeira para todos os casos possíveis (porque se fosse, seria uma verdade absoluta); e se ela não é verdadeira para todos os casos, então para alguns casos ela é falsa; portanto a verdade absoluta existe. Mais uma vez a posição adversária é a nossa arma mais eficaz.
Concluímos, então, que a verdade existe e que ela não é completamente relativa. Mas é um fato que existem verdades relativas. Eu, por exemplo, gosto de feijoada; já Luiz não gosta, e nenhum de nós dois está certo ou errado nesse gosto. Portanto, “feijoada é bom”, na medida em que expressa um gosto de alguém, é uma verdade relativa. No entanto, “Joel gosta de feijoada e Luiz não”, e “feijoada é bom segundo Joel” são verdades absolutas. Vê-se, assim, que mesmo as mais relativas das verdades (o gosto pessoal de cada um) podem ser expressas como verdades absolutas.
O último recurso de quem não quer aceitar essas conclusões, de quem está comprometido até o fundo da alma com o relativismo, é questionar os princípios da lógica. Se a lógica for uma enganação, se algo puder ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, então, de fato, não há porque aceitar os argumentos que provam que a verdade existe e é absoluta. Mas também não há como continuar nenhuma discussão, pois poderiam negar tudo aquilo que aceitam sem problema algum. Resta a cada um ir para o seu lado: uns, aceitar a verdade e encarar a realidade, usando da razão para entender o que há à sua volta, e outros para seu próprio mundo, no qual existem solteiros casados e círculos redondos, onde o ser é o não-ser e o bem é o mal; onde, enfim, a verdade é relativa e o erro é absoluto.
Nos dias de hoje não é incomum responder-se à pergunta na negativa. Na minha própria faculdade, dois professores já declararam que “a verdade não existe”. Com todo respeito a eles, não é uma posição muito forte, pois para refutá-la basta uma mera pergunta. Sim, a tese “a verdade não existe” é demolida com esta singela interrogativa: “isso é verdade?”. De duas, uma: ou a tese “a verdade não existe” é falsa, e nesse caso pode-se concluir seu oposto (“a verdade existe”), ou então ela é verdadeira. Mas se a tese é verdadeira, então algo é verdadeiro (a própria tese), e portanto a verdade existe! A afirmação “a verdade não existe” prova que a verdade existe. Nossos próprios adversários lutam involuntariamente em nosso favor; mas não se dão por vencidos facilmente. Assim que sua defesa é destruída, mudam logo de estratégia.
Muito bem, concordariam, a verdade de fato existe. Existe, mas é relativa. “Toda verdade é relativa”, ou seja, nada é absolutamente verdadeiro, nada é sempre verdadeiro. Não se espantem, leitores, mas essa nova tese, essa nova ofensiva contra a verdade absoluta, é tão forte quanto a anterior: também é refutada com uma pergunta. “Toda verdade é relativa”, afirma-se; pergunta-se, então, “essa tese é uma verdade absoluta ou relativa?”. Novamente, duas respostas são possíveis: a tese “toda verdade é relativa” pode ser uma verdade absoluta, e portanto existe uma verdade absoluta (a própria tese), e portanto nem toda verdade é relativa; alternativamente, a tese pode ser uma verdade relativa. Nesse caso, ela não é sempre verdadeira, não é verdadeira para todos os casos possíveis (porque se fosse, seria uma verdade absoluta); e se ela não é verdadeira para todos os casos, então para alguns casos ela é falsa; portanto a verdade absoluta existe. Mais uma vez a posição adversária é a nossa arma mais eficaz.
Concluímos, então, que a verdade existe e que ela não é completamente relativa. Mas é um fato que existem verdades relativas. Eu, por exemplo, gosto de feijoada; já Luiz não gosta, e nenhum de nós dois está certo ou errado nesse gosto. Portanto, “feijoada é bom”, na medida em que expressa um gosto de alguém, é uma verdade relativa. No entanto, “Joel gosta de feijoada e Luiz não”, e “feijoada é bom segundo Joel” são verdades absolutas. Vê-se, assim, que mesmo as mais relativas das verdades (o gosto pessoal de cada um) podem ser expressas como verdades absolutas.
O último recurso de quem não quer aceitar essas conclusões, de quem está comprometido até o fundo da alma com o relativismo, é questionar os princípios da lógica. Se a lógica for uma enganação, se algo puder ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, então, de fato, não há porque aceitar os argumentos que provam que a verdade existe e é absoluta. Mas também não há como continuar nenhuma discussão, pois poderiam negar tudo aquilo que aceitam sem problema algum. Resta a cada um ir para o seu lado: uns, aceitar a verdade e encarar a realidade, usando da razão para entender o que há à sua volta, e outros para seu próprio mundo, no qual existem solteiros casados e círculos redondos, onde o ser é o não-ser e o bem é o mal; onde, enfim, a verdade é relativa e o erro é absoluto.
13 comentários:
Comentário excluído
Esta postagem foi removida pelo autor.
12:16 AM
viva a censura!!!
Joel, infelizmente não posso discutir com você porque, de acordo com meu sistema de lógica, tudo é contraditório.
Só para esclarecer. Não fui eu que apagou o comentário, mas sim o autor do mesmo.
Além disso, segundo o "meu" sistema lógico nem tudo é contraditório.
Joel,
Estou absolutamente convencida da sua exposição. Mas tenho uam indagação (Desculpe se a pergunta soa muito leiga - porque é): A que se presta a necessidade de concluirmos que a verdade absoluta existe? Qual seria o passo à frente?
Oi Joel, muitos séculos atrás, um importante filósofo grego chamado Heráclito de Éfeso afirmou que a verdade não depende de quem fala, mas de quem ouve.
POrtanto, partindo desse ponto de vista, os conceitos do que é verdadeiro ou não para as pessoas varia de acordo com seu valores e perspectivas.
Por isso que é tão discutível!
Eu acredito que existam verdades, mas não que elas sejam absolutas.
E me custa muito explicar pq eu penso assim.... Eu poderia citar as discussões entre as minhas verdades e as do Werther como exemplo, mas não quero trazer pra cá as nossas antigas brigas.
No mais, o subtítulo desse blog, que se diz em defesa da verdade é muito pretensioso. Quem disse que tudo que vcs pensam é "A" verdade?
Um abraço!
Putz, eu citei Heráclito, quando na verdade foi outra pessoa que disse que a verdade depende de quem ouve.
Não consigo lembrar agora o nome do autor da frase...
Foi mal ae.
Bjus
Cara Sonja,
Sou obrogada a defender o subtítulo do blog, não porque ele não tenha - ótimos - defensores próprios, mas porque o achei muito bacana.
Ao meu ver, não se trata de pretensão defender a verdade, exatamente por isso o "onde ela estiver"
A esse propósito, sugiro a leitura do texto da introdução em que o Joel fez uma analogia bem bacana justamente sobre a busca pela verdade.
abs.,
Ana
Oi Ana, eu tenho uma visão diferente.. Eu creio que eles estão em busca de algo que justifique aquilo que eles acreditam ser a verdade. Sacou?
mas eu lí o texto introdutório e o achei muito bom, assim como todos os demais desse blog.
É só uma perspectiva diferente...
Mas isso não ivalida a proposta desses meninos! Que, aliás, é muito boa! =D
Um beijo e não posso deixar de dizer que gosto muito dos seus comentários! =D
Um beijo!
É, acho que não foi Heráclito, não.
Heráclito acreditava que tudo é e não é ao mesmo tempo. Além disso, a linguagem humana seria incapaz de alcançar qualquer verdade, pois assim que se fala de algo aquele algo deixou de ser.
Ou ao menos é assim que a visão de Heráclito entrou para a história.
Mas Sonja, como é possível afirmar que a verdade seja completamente relativa? É exatamente isso que eu procurei provar ser uma impossibilidade.
E indo um passo além, após reconhecer que a verdade existe e é absoluta, resta-nos saber como conhecê-la e no que ela consiste.
Você pressupõe que valores sejam todos relativos, ou seja, não existe valor correto. Mas como pode afirmar isso com certeza? Não seria essa sua opinião também apenas relativa?
É só algo a se pensar. Todos ficamos acostumados a acobertar todas as discordâncias com o dogma da relatividade da verdade. Mas esse próprio dogma é auto-contraditório. E o que é auto-contraditório não pode ser verdadeiro.
Pois é Joel, hoje cedo estava lendo uma "Caras" antigas e ví um verbete desse tal de Heráclito que achei muito interessante: "Asnos preferem a palha ao ouro" e guardei. Aí, chego aqui no blog, fui tentar falar bonito e falei caquinha. Mas tudo bem, não tenho problemas em reconhecer quando erro. O grande problema é que não lembrei ainda o nome do autor da frase que falei! o.O
No mais, eu não acho que a verdade seja completamente relativa. Eu devo ter me expressado errado, quando eu considero que os fatos existem e não podem ser negados, mas o que muda é olhar lançado sobre ele, pois o nosso olhar, o nosso discurso e valores variam no tempo e no espaço. Logo, existem vários conceitos de verdade.
Não gosto de pós-modernos que relativizam tudo. Eu não tenho muito conhecimento para falar sobre isso, pq o que eu aprendí sobre discurso sobre o verdadeiro é para ser empregado em análises históricas e fiz um trabalho sobre isso nos discursos e talz... e nem achei aqui para dar uma revisada e dizer algo.
Mas com certeza eu não creio e não disse em momento algum que ela é totalmente relativa.
Um beijo! =***
Joel, achei seu profile no orkut! Vc é quase um beato! huashuasuas
huashuashuahs
Tudo bem... eu sou filha de Pastora! =D
Bjus
Bom, em todo caso gostaria de ressaltar que sua presença no blog tem sido muito produtiva, Sonja!
Obrigada joel. na verdade foi o Werther quem me convidou e já botei um link dele no meu blog divulgado isso aqui!
Um beijo! =***
Dialética até a raiz.
Interessante tese.
A Filosofia já atingiu no século passado, e quiçá a Ciência perceberá isso neste século, de que não existe verdade definitiva. Um dia foi o fogo, noutro a relatividade, a física-quântica, as supercordas... Cada “verdade” possui seu tempo.
Também poderíamos dizer que todos, e ninguem ao mesmo tempo, podem abarcar em uma mera palavra toda a concepção da verdade relativa ou temporal de cada um.
A complexidade da simplicidade da lógica nesta discussão é usada muito habilmente para legitimar, e, posteriormente, finalizar uma racionalização cooerente com esses princípios.
Então a questão não finda somente na relação binária. Além de responder a isso seria necessário, pelo simples motivo de que a insatisfação seria generalizada findada somente na lógica, conseguir de alguma maneira sintetizar uma definição mesmo que contraditória.
Mesmo que seja na tentativa de conseguir chegar a resposta partindo pela definição contrária do oposto do conceito.
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