sábado, maio 05, 2012

Caderno de Tradução


Excerto traduzido da Summa Sambologiae de S. Francisco de Holanda, questão 08, artigo 13 [Codex Budapestensis].



13. Pergunta-se:
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela; será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela?

1ª Objeção: E parece que é o chocalho que mexe com ela. Conforme o Terceiro Concílio da Carrapixa [cânone 12], “bate forte o tambor, eu quero é tique-tique-tique-tique-tá”. Tique-tá diz respeito ao remelexo do corpo, como fica claro adiante: “É nessa dança que meu boi balança”. Conforme a glosa, o boi significa o corpo humano, pois o homem, no que ele tem de corpóreo, partilha da mesma natureza das criaturas não-racionais. Ora, o tambor e o chocalho pertencem ao mesmo gênero, i.e., a percussão, diferindo apenas na espécie. Portanto, da mesma forma que é devido ao tambor que o boi balança, é o chocalho que mexe com a morena de Angola.

2ª Objeção: Toda dança é determinada por um objeto que a especifica e age sobre o dançarino como um motor sobre o movido, conforme diz Frei Luís de Lavavila [De Clunibus 1,1] “Conheci uma menina que veio do Sul; pra dançar o Tchan e dança do Tchu-Tchu. Deu em cima deu embaixo na dança do Tchaco, e na garrafinha deu uma raladinha.” Ora, a Angola está localizada na parte Sul do Globo, na qual predomina o elemento quente e úmido, que debilita a potência geradora do sêmen, de modo que os homens lá gerados são demasiadamente carnais. O carnal é aquele em que preponderam os apetites, e não a razão. E é próprio dos apetites serem movidos, e não moverem. Logo, a dança da morena de Angola é determinada por um objeto, i. e., o chocalho, que a mexe segundo diversos modos, i.e., o Tchan, o Tchaco e o Tchu-Tchu.

3ª Objeção: Segundo Cajetanus em De Potestas 2,1: “Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval”. Exercer o poder é causar o movimento a outro, o que é próprio do homem qua animal racional. o carnaval é o domínio da carne sobre o intelecto. E é próprio da carne, assim como de todo corpo, ser movida. Portanto, dos entes listados, apenas os homens movem e os outros são movidos. Ora, a morena de Angola é mulher e é negra. Logo, é duplamente certo que é o chocalho que mexe com ela.

4ª objeção: O coração é o princípio material e eficiente do movimento do ser animado. E o coração é significado pelo tambor, conforme José Miguel de Polônia: “Meu coração bateu tambor aflito, tambor aflito e tonto de bater” [De Nomini Angelorum, 2]. Conforme dito acima, tambor e chocalho pertencem ao mesmo gênero; logo, chocalho e coração pertencem ao mesmo gênero. Ora, a morena de Angola é um ente animado. Logo, o princípio do seu movimento é o chocalho.

Em contrário: Diz o Letrista em De Siti Fameque: “A gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão, ballet”. Comida e diversão denominam gêneros; logo, conclui-se que “ballet” também denomine um gênero, i. e., a dança. O Letrista menciona apenas a espécie ballet por ser a espécie mais perfeita do gênero, e portanto inclui todas as outras. “A gente quer” diz respeito ao ato da vontade humana. Assim, o ato da vontade precede a dança. Ora, o chocalho é chacoalhado pela dança. Portanto é a morena de Angola que, rebolando, mexe o chocalho.

Respondo: A mexeção pode se dar de duas maneiras. Diretamente quando um corpo ativo move a outro que é passivo, e nesse caso é evidente que é a morena de Angola que mexe o chocalho, pelo ato de sua vontade de remexer o corpo, que por sua vez mexe o chocalho, que é material e passivo, e portanto não inicia movimento. Indiretamente, no entanto, um corpo menor e passivo, ou mesmo uma espécie sensível, pode mover um corpo maior e ativo. Assim devem ser entendidas as palavras do Pensador [Frangit Cap. 11] ao relatar a atração exercida pela festa da música tupiniquim, que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim. Do mesmo modo, poderes ocultos de certos sons imprimem sua forma ao intelecto passivo, causando o movimento do corpo, especialmente dos membros inferiores e do baixo ventre. Logo, o chocalho, cuja operação natural é regida pelo corpo celeste, pode mexer, indiretamente, com a morena de Angola.

Resposta à 1ª objeção: o Concílio se referia a tais efeitos ocultos do som sobre o intelecto aludidos na resposta.

Resposta à 2ª objeção: Ainda que haja tal efeito sobre o sêmen, ele não é tal que impeça a operação da potência intelectiva do homem. E portanto também a morena de Angola é capaz de iniciar, por um ato da vontade, seu rebolado, e com ele mexer o chocalho. Ocorre que certas pessoas, devido a seus vícios, são como que escravos das paixões. Assim, a menina que veio do Sul, ao ver a boca da garrafa, não agüenta e vai ralar. Nesse sentido, concede-se que o chocalho mexa com a morena de Angola, conforme dissemos, de forma indireta e secundária. Isso basta para a terceira objeção.

Resposta à 4ª objeção: Nem a morena de Angola, nem a menina que veio do Sul, nem com todos os chocalhos do mundo, nem com todos os tambores, e nem com a garrafinha seriam capazes de remexer ao som de um sambinha do Wisnik. [Nota do tradutor: na seção anterior, ainda não traduzida, Francisco de Holanda apresentara as quatro vias para a existência do Motor Imovente, que são, sinteticamente: o DNA caucasiano, o fetiche da brasilidade, o intelectualismo uspiano e a Vila Madalena.]

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