sexta-feira, agosto 27, 2010

O Fogo Divino, os Santos e os Pecadores

"Partiram de Sucot e acamparam em Etam, na periferia do deserto. O Senhor os precedia, de dia, numa coluna de nuvens, para lhes mostrar o caminho; de noite, numa coluna de fogo para iluminar, a fim de que pudessem andar de dia e de noite.” Êxodo 13, 20-21

"A coluna de nuvens que estava na frente postou-se atrás, metendo-se entre as tropas dos egípcios e as de Israel. Para uns a nuvem era tenebrosa, para outros iluminava a noite, de modo que durante a noite inteira uns não podiam ver os outros.” Êxodo 14, 19-20

Já defendi em outro lugar - e é uma tese em nada estranha à autêntica tradição cristã - que a punição do inferno está intrinsecamente ligada ao estado da alma ao qual ele corresponde: amar uma criatura mais do que ao Criador. Preferir um bem finito e relativo ao Bem absoluto, que é a única fonte possível da felicidade humana, é condenar-se à miséria eterna. A dor sensível é decorrência do mau moral.

Hoje quero explorar um ponto ligado a essa idéia: a dor dos condenados e o deleite dos santos provêm do mesmo objeto. Toda a diferença entre a alma em estado de beatitude e a alma condenada reside na disposição delas perante Deus. Quero ilustrar isso com a imagem do fogo, muito cara à tradição católica, que é composta basicamente da Bíblia, dos ensinamentos magisteriais e dos escritos de santos e místicos.

A primeira imagem que nos vêm à cabeça quando falamos de fogo num contexto cristão é o Inferno. A dor dos condenados sendo consumidos por seus próprios crimes, remorsos e desejos maus é comumente representada pelo fogo, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O próprio Cristo, por exemplo, explica a parábola do joio e do trigo: “O joio são os filhos do maligno. [...] Como se junta o joio para ser queimado ao fogo, assim acontecerá no fim do mundo. O Filho do homem enviará os anjos e eles recolherão do Reino todos os escândalos e todos os promotores da iniquidade, e os jogarão na fornalha de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mateus 13, 38.40-42). O remorso e o desespero de se saberem claramente maus consome a alma dos condenados; os desejos desordenados de sua vida agora queimam com intensidade máxima; com a morte, a alma dirige-se, determinada e sem titubeios, àquilo que amava em vida. O fogo é uma imagem particularmente forte: é aquilo que a tudo consome e destrói, implacável e doloroso.

Mas essa imagem aparece também em outro contexto: para falar de Deus. A mesma passagem acima continua: “É então que os justos brilharão como o sol no reino do Pai.” João Batista batizava com água, mas anunciava alguém que viria batizar “no Espírito Santo e no fogo”. O Espírito Santo, quando desce aos apóstolos (pouco depois da ascensão de Jesus ao céu), aparece como “línguas de fogo”; e não podemos nos esquecer da sarça em chamas que fala a Moisés e várias outras imagens do Antigo Testamento.

Cristo diz que veio “pôr fogo à terra”. Pensamos em primeiro lugar na justiça terrível a ser feita contra os maus e impenitentes. Mas esse mesmo fogo efetua a salvação dos justos. Explica S. Paulo: “Se sobre este fundamento [Jesus Cristo] alguém edifica ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha, a sua obra ficará manifesta, pois em seu dia o fogo o revelará, e provará qual foi a obra de cada um. Se a obra constituída sobre o fundamento resistir, o autor receberá o prêmio, e aquele cuja obra for consumida sofrerá o dano; ele, todavia, se salvará, mas como quem passa pelo fogo.” (1Coríntios 3, 12-15). Aqui a oposição não é entre os justos e os condenados, mas entre os justos que se santificam ainda em vida e aqueles que, embora estejam no caminho bom, embora ergam suas obras no fundamento de Jesus Cristo, ainda deixam muito a desejar. É o fogo o teste que revela a obra de ambos. E aqueles cuja obra não resistir ainda terão que passar “pelo fogo” mais uma vez, isto é, pela purificação além-morte, pelo mesmo fogo dos condenados, mas numa duração finita. Em suma, o estado que se convencionou chamar de Purgatório. O fogo consome, mas também purifica e endurece. A argila temperada no fogo (imagem minha), resiste àquilo que quebraria a argila mais frágil.

O fogo também é usado para representar o amor, como no “fogo que arde sem se ver” de Camões. S. Tomás de Aquino usa a mesma imagem para o efeito do fogo: aquecer. Assim como o mesmo fogo age com maior força no que está perto do que no está distante, assim também a caridade ama com maior fervor aqueles que estão unidos a nós do que aqueles mais distantes; e sob esse aspecto o amor pelos amigos, considerado em si mesmo, é mais ardente e melhor do que amor pelos inimigos.” (ST, II-II, q. 27, a. 7). “Deus é amor”, diz S. João. E o que é o fogo do amor-caridade senão o próprio Deus enquanto vive e age na alma humana? Com efeito, o coração de Cristo é sempre representado, na arte sacra, como um coração em chamas.

Nessa mesma linha, o misticismo ocidental usa a imagem do fogo para descrever a ação do Espírito Santo. João de Ruysbroeck (não sei se é o primeiro a usar a imagem a seguir; mas é o primeiro que me lembro diretamente), monge flamengo do século XIII, bota nestes termos: “Se um homem quiser penetrar mais fundo, com seu amor ativo, nesse amor de fruição: então todas as potências de sua alma devem ceder, e devem sofrer e pacientemente suportar a Verdade e o Bem penetrantes que são o próprio Deus. Assim como [...] o ferro é penetrado pelo fogo; de modo que ele faz, pelo fogo, as obras do fogo, pois ele queima e brilha como o fogo. [...] E no entanto cada um permanece com sua própria natureza. Pois o fogo não se transforma em ferro, e o ferro não se transforma em fogo, embora sua união seja não-mediada; pois o ferro está dentro do fogo e o fogo está dentro do ferro...”. Essa imagem é muito rica, e mais tarde rendeu um novo elemento: é pela ação do fogo que o ferro se torna moldável, ou seja, dócil à ação do Espírito na alma que produz a transformação espiritual e moral do indivíduo no próprio Deus (theosis). Como o metal que participa do fogo, a criatura participa do Criador, ainda que ambos preservem suas naturezas. O Céu, lembrou Bento XVI esses dias, é viver no amor de Deus.

E o Inferno é rejeitar esse amor. Voltemos à Bíblia: na parábola do semeador que joga suas sementes pelo caminho, é o mesmo sol que faz as plantas nascerem e crescerem e que faz com que aquelas que crescem em solo pedregoso sequem e morram. Quero, com tudo isso, apenas apontar um fato: depois dessa vida, nos encontramos com Deus. E o estado da nossa alma consiste na nossa reação a esse encontro. Para uns é o fogo do amor unitivo, para outros o da purificação esperançosa e para ainda outros o fogo da destruição. Santos e condenados se encontram na presença de Deus. A distância que os separa é a distância espiritual entre amar o Bem ou detestá-lo. Para os egípcios a coluna de nuvens/fogo cegava e aterrorizava; para os judeus, guiava e protegia. É como escreveu C. S. Lewis: “No final há apenas dois tipos de pessoa: as que dizem para Deus ‘seja feita a Vossa vontade’, e aquelas a quem Deus diz, no fim: ‘seja feita a vossa vontade’”.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Anti-capitalismo, Escolha o Seu

Muita gente é contra o livre mercado porque, sem a intervenção do governo, a economia não prospera. Máquinas substituem trabalhadores. O capital, ao invés de ser usado na produção, vai para a especulação. O desemprego aumenta, uma minoria de ricos enriquece enquanto uma massa crescente de desempregados vive da mão para a boca ou morre de fome. Com menos consumo, a produção cai. Todos ficam tímidos e com medo de investir devido ao risco, e então entesouram seu dinheiro em casa, tirando-o de circulação; o mercado como um todo vai à falência.

Já outro argumento, vindo frequentemente das mesmas bocas, sustenta que o livre mercado é mau porque cria nas pessoas, por meio da propaganda, um milhão de falsas necessidades, fazendo da massa (exceção feita, claro, aos “conscientizados”...) zumbis do consumo, atrás de celulares, carros e tênis comprados em 20x “sem juros”. Escravos do consumo, perdem o gosto pela vida simples e pelos bens mais elevados do espírito.

Meninas preocupadas com o peso têm que escolher entre o doce e a fruta, jovens angustiados têm que escolher entre exatas e humanas; agora chegou a vez dos intervencionistas escolherem qual dos dois ataques ao capitalismo deve permanecer; pois os dois ao mesmo tempo não dá! Ou o livre mercado destrói empregos e empobrece as massas impedindo-as de consumir o básico, ou ele as enriquece de tal maneira que as permite viver atrás do supérfluo. Teses contrárias não podem ser ambas verdadeiras.

Mas podem ser ambas falsas. Vejam só: a falácia do desemprego resultante do livre mercado é das mais velhas da ciência econômica. Não, a tecnologia não gera desemprego: pelo contrário, ao tirar trabalhadores de algum ramo que fica mais eficiente com máquinas, ela libera mão-de-obra para outros ramos, que antes recebiam menos trabalhadores ou até mesmo nenhum. Se uma máquina sozinha dá conta de produzir o alimento, podemos parar de trabalhar o dia inteiro na plantação e escrever livros, trabalhar em hospitais, etc. E não precisamos ter medo do entesouramento. Mesmo que uma parcela da população entesourasse seu dinheiro (isto é, escondesse embaixo do colchão ao invés de ganhar juros aplicando no banco - que o usaria para novos investimentos) o efeito dessa retirada do dinheiro da economia seria a queda dos preços; ou seja, quem não tomou a decisão genial de esconder seu dinheiro e não ganhar juros (e eu pensando que no capitalismo as pessoas eram gananciosas...) poderá comprar mais produtos a preços reduzidos. Ao longo do século XIX a tendência era de queda de preços (que é o natural quando a produtividade aumenta) e todas as economias cresceram muito; os perigos da deflação são um mito.

Quanto ao consumo zumbi, tenha dó, né? Em tempos muito mais liberais, portanto muito mais capitalistas, o consumismo não era um problema tão grande assim. Muita gente tem inveja e não gosta de ver, por exemplo, pobre consumindo. Se pobre compra celular que tira foto, é porque foi manipulado pelo marketing, e não porque sua vida será efetivamente facilitada. Ver consumismo genérico nos outros é a coisa mais fácil do mundo. Difícil é apontar os casos específicos. Pois é óbvio que o consumidor sabe que não precisa do tênis para sobreviver, assim como não precisamos de pratos e talheres; ele quer o tênis, pois o deixará mais confortável e vai pirar as minas na balada. A propaganda apenas apresenta a marca aos consumidores; tenta deixá-la gravada na cabeça deles para que se lembrem mais tarde e comprem o produto. A marca, por sua vez, tem o papel valioso de carregar informações. Se um tênis é Nike, já sei que será caro, mas também sei que posso esperar uma certa qualidade. Nenhuma das duas, propaganda ou marca, são infalíveis ou onipotentes; quantas campanhas publicitárias fracassadas já não ocorreram (ex: mudança de sabor da Coca-Cola), e quantas marcas antes poderosíssimas são hoje uma sombra (AOL, alguém?)...

Ouso dizer que, de fato, muitos gastam dinheiro com superfluidades. E a intenção por trás desses gastos é, via de regra, impressionar os demais; um desejo que, embora moralmente questionável, não foi engendrado nem pelo capitalismo nem pela propaganda. Não é de hoje que a vaidade (que, mais do que a preocupação com a beleza física, é o querer ser glorificado aos olhos dos demais) é um pecado capital. Tenho a forte impressão que muita gente com objeções ao capitalismo objeta, na verdade, ao pecado original; mas isso é outro assunto...

Quer ser anti-capitalista, vá lá, é direito seu, ninguém é perfeito. Se os argumentos serão bons ou não, veremos caso a caso. Mas antes de começar, preste a si mesmo a cortesia de verificar que os ataques são, ao menos, internamente consistentes. Melhor tomar o risco de fazer uma escolha de uma opinião que pode ser falsa do que sustentar opiniões que, conjuntamente, não têm como ser verdadeiras.

Postado originalmente no Instituto Mises Brasil.

quinta-feira, agosto 05, 2010

A Morte nas Esferas Pública e Privada

Não sabemos lidar com a morte. Com menos gente morrendo “fora de hora” (o que é bom), pensamos menos nela. Ao mesmo tempo, a mídia e a Internet confundem as esferas pública e privada. Antes, saber que alguém distante morreu era só mais um fato abstrato; agora temos que ver a mãe chorando na TV e os vídeos-tributo que os amigos publicaram no Youtube. Sentimentos privados vêm a público, e todos se sentem obrigados a partilhar do sofrimento de quem era próximo. Pior: confundimos isso com respeito.

“Que homem bom: ele sente profundamente a morte de todos os seres humanos” - isso pode bem ser verdade, mas as poucas pessoas que de fato sentem assim só se encaixam em dois tipos de vida: se acreditam numa transcendência, vida dedicada à oração ou ritos propiciatórios para os que se foram. Se atéias, vida melancólica contemplando a tragédia da humanidade destinada aos vermes. Claro, a imensa maioria não está nem aí para a morte de desconhecidos, caso contrário viveríamos em luto constante, pois tem sempre alguém morrendo.

Ficamos tristes quando morre alguém próximo. Quanto mais conhecemos sua vida, mas tocados ficaremos em saber de seu fim. Mas se desconheço o morto e não tenho relação com seus entes próximos, por que manter a pose e condenar como “desrespeitoso” quem não entre no jogo? Quem nunca riu com o Darwin Awards que atire a primeira pedra.

A morte de Lincoln não me toca. Não me sinto constrangido a me fazer de triste ou pisar em ovos para falar dele. O mesmo vale para quem morre no presente e é distante de mim. Isso não é falta de respeito nem com quem faleceu e nem com seus próximos, dos quais eu não sou próximo. Se conhecesse algum amigo seu, é claro que, nessa esfera privada, comportar-me-ia respeitosamente de acordo com o sofrimento alheio. Mas na esfera pública nada disso está em jogo, ou pelo menos não deveria estar.

Quando morre um intelectual, por pior que tenha sido, lá vêm os editoriais redimi-lo. Elegias não tardam a vir das fontes mais improváveis. Isso é especialmente verdade, na minha experiência, em círculos cristãos, que confundem a caridade devida aos mortos com falar uma coisa boa de quem morreu, mesmo que tenha sido crápula. Que me importa se Saramago morreu? Vou agora salvar sua alma? Tarde demais. Posso ajudá-lo de verdade rezando por ele, o que será virtuoso se feito privadamente. Espero que tenha ido para o céu e mantenho inalteradas minhas opiniões sobre sua obra e vida pública. No círculo dos entes queridos, ali sim é o lugar de lembrar o bem que ele fez; na esfera pública, nada de obituários chorosos de quem sempre o lamentou em vida. Quando morrer Fidel, virão elegias cristãs e conservadoras sobre “boas intenções infelizmente equivocadas” ou sobre a “realização imperfeita de um ideal”? Bota imperfeito nisso!

A morte é o maior drama da existência. Mas nem todas as mortes nos tocam. Uma coisa é a esfera íntima, e o respeito aos sentimentos de quem era próximo; outra coisa é a esfera pública, que não precisa e nem se beneficia de manifestações de tristeza e amor tardio. Alardear publicamente o comportamento apropriado à esfera privada não é virtude, é vaidade.

domingo, agosto 01, 2010

Nem Tudo é Racismo

Uma coisa que obviamente não é racismo: afirmar que existem diferentes raças humanas. Circulou por aí - não sei se ainda circula; ouvia muito no colégio - que “de acordo com a ciência” não existem diferentes raças no homo sapiens, e que afirmar o contrário já é ser racista. Quem primeiro inventou essa não duvido que fosse bem intencionado, mas errou feio mesmo assim. Pois é óbvio que existem diferenças entre os homens, que são passadas aos descendentes, e que permitem que classifiquemo-los em diferentes sub-grupos. Qualquer classificação em níveis inferiores à espécie, ou seja, entre indivíduos que podem se reproduzir entre si, terá um quê de arbitrária. Mas não é por acaso que pais brancos têm filhos brancos, e pais negros, filhos negros. Falar em raças e, dentro de raças, etnias, é plenamente racional e nada racista.

Outra coisa que não é racista é apontar que, dado existirem diferenças externas entre as raças, podem existir diferenças internas, fisiológicas e neurológicas - há, inclusive, remédios com efeitos diferentes em brancos e negros. E portanto também não é racista supor diferenças de habilidades entre as raças, ou seja, afirmar que uma raça é, em média, mais apta para a matemática, outra é mais criativa, outra é mais inteligente (ou é melhor em um tipo de inteligência), outra melhor em certos esportes etc.

Notar diferenças de comportamento entre populações de diferentes raças não é racismo. Logo, reagir de acordo também não o é. Assim, se 90% dos crimes fossem cometidos por loiros, e estes representassem 2% da população total, faria sentido que um comerciante, se quisesse, proibisse a entrada de loiros em seu estabelecimento. Na mesma nota da discriminação, achar pessoas de uma raça em geral mais bonitas, ou até se dar melhor com gente dessa ou daquela raça ou etnia, também não implica racismo. Os gostos e os jeitos são diferentes; nada de mau aí.

Tudo o que está listado acima pode ser efeito do racismo, mas não necessariamente o é. E o que é racismo? A melhor definição, na minha opinião, é ódio racial. Considerar ou tratar membros de outras raças como seres inferiores, sub-humanos; deixar que a opinião que se tem sobre a raça prevaleça sobre o conhecimento do indivíduo: “Se ele é da raça X, então tem que se comportar da forma Y”, o que efetivamente nega que o indivíduo em questão tenha livre arbítrio.

O fato de negros serem mais pobres que brancos não prova, de si mesmo, a existência de racismo. Um milhão de variáveis além de “os brancos odeiam os negros” podem explicar essa diferença: desigualdade educacional, culturas mais ou menos propícias à geração de riqueza etc. Mas a moda é ver racismo em tudo. Se não encontramos racismo aberto, então ele é mascarado e hipócrita, “e por isso mesmo muito mais perigoso”. Na verdade o mesmo vale para todos os preconceitos: machismo, discriminação religiosa, homofobia etc. É confortável colocar-se na posição de vítima sofredora ou de acusador indignado. Nossa sociedade estimula essas práticas, conferindo-lhes a aura falsa de superioridade moral. Então cada um tenta mostrar que sofre mais que os outros, encaixando-se em alguma definição de vítima para conseguir a sua migalha de condescendência. São vítimas apenas de si mesmos.

quinta-feira, julho 15, 2010

Eleições Presidenciais ou "Dá pra tomar uma Kaiser antes?"

Já disse por aqui que gosto das eleições. Há um sentimento de esperança no ar. Claro que é ilusório; nada vai mudar. Nossa única escolha é a velocidade da corrida ao precipício. O sistema democrático impede qualquer mudança real, pois quem não agrada à maioria não ganha. Todos os candidatos são pela saúde, pela educação, pelo esporte, pelo emprego, pela cultura, pelos pescadores artesanais etc (leia-se: querem gastar mais nessas coisas). Onde estão os bons e velhos defensores da miséria, da fome, do desemprego e da poluição? Teriam meu voto.

O movimento pela diminuição dos impostos não importa absolutamente nada. Corte de impostos é uma bandeira popular, mas sem sua contra-partida necessária, o corte de gastos, que é muito impopular, é inofensivo: o dinheiro continuará a sair do nosso bolso. E corte de gastos não significa “aumentar a eficiência” (o que todos os candidatos obviamente prometem); significa, isso sim, demitir funcionários públicos em larga escala, acabar com a remuneração de cargos como vereador e deputado estadual e aceitar que não é papel do governo financiar a tudo e todos. Não há sequer um candidato com coragem para propor a eliminação de irrelevâncias como o ministério da cultura e do esporte. “O quê?? Tirar do esporte? E a Copa? E as Olímpiadas? E as nossas chances de ouro?” - Pois é, né? Será que quem diz isso já parou para pensar que, quem sabe, talvez, possivelmente, hipoteticamente, não seja obrigação do resto do povo pagar pelo ginásio e pelo treino dos atletas? Se nem aí vamos cortar, não percamos o sono com redução de impostos.

Na corrida presidencial atual, vejo-me particularmente sem opção. O meu voto natural seria para a direita reacionária ultra-liberal que é o PSDB. Mas toda vez que o Serra abre a boca para vomitar seu discurso desenvolvimentista aumenta meu desgosto. Do outro lado, no PT, aquela cujo nome não se deve mencionar afirma que “controle da inflação também é distribuição de renda”. Os lados mudaram, a moeda permanece. Um paradoxo desses só espanta a quem acredita que os candidatos estão aí para defender idéias, e não para saciar sua sede de poder cada vez mais descarada.

Enquanto isso, eis que surge Marina, uma candidata diferente, que quer um Brasil melhor e não está no mero jogo político dos demais. Sim, isso tudo envolto pela mesma vacuidade obrigatória do discurso padrão (que, na minha opinião, já deveria desqualificar o candidato). Os afeitos ao tédio podem ler as diretrizes do governo dela. Para quem tem mais o que fazer, uma citação aleatória:

f. Consolidação dos direitos coletivos e valorização da diversidade sociocultural e ambiental – Promover o desenvolvimento de políticas intersetoriais centradas nos territórios de forma a priorizar e apoiar de forma articulada os programas voltados às famílias e às escolas situadas em áreas de alta vulnerabilidade, combatendo as desigualdades regionais de forma a atender às demandas específicas de cada região.”

Agora imagine páginas e páginas disso. Por outro lado, pontos positivos: Marina vê com bons olhos a liberdade de escolas religiosas ensinarem o criacionismo (mesmo não sendo ela própria criacionista; nem eu, por sinal, mas longe de mim querer impor currículo) e é contra o aborto (embora o PV queira legalizá-lo). É uma pessoa boa, o que na política não é pouco. A parte mais bela da sua campanha é a fé na democracia. Não quer repetir o velho cabo-de-guerra entre situação e oposição, que trava todos os projetos importantes; não tem medo de admitir os pontos positivos das administrações passadas; não quer nem direita nem esquerda, mas à frente. Lindo.

Gosto da Marina da mesma forma que gosto das eleições, reconhecendo que meu sentimento se baseia numa ilusão. Pressupõe que a política seja capaz de resolver os problemas da humanidade. Com boa vontade, pessoas honestas num diálogo democrático chegarão às melhores leis e políticas para possibilitar uma boa vida aos cidadãos. Mas a experiência diz o contrário: quanto mais os políticos se metem em nossas vidas, pior elas ficam (ceteris paribus, sempre ceteris paribus).

A política não é a resposta. A fé que Marina tem na democracia é admirável se comparada ao cinismo maquiavélico de seus concorrentes, mas pode ser tão ou mais nociva que ele. Pois o corrupto competente sabe preservar a sociedade para não comprometer a estabilidade de seu poder. Já o idealista desastrado não hesita em destruir tudo que esteja no caminho dos seus “ideais”. Antes Luís XVI do que Robespierre! Verdade seja dita, Marina é aberta e disposta a ouvir - muito diferente, portanto, dos revolucionários franceses - mas mesmo assim seu ecologismo business-friendly e suas alusões a uma nova constituinte têm um potencial de desastre gigantesco.

Em quem votar, então? Não faço idéia. Como não estarei no Brasil, é uma escolha que não farei, mas conheço-me o bastante para saber que, mesmo odiando-o, votaria no Serra, e quem sabe na Marina no primeiro turno. As eleições passam e sigo guardando no peito a bela esperança de que um dia, num futuro indeterminado, a democracia, as eleições e toda a política sumam das nossas vidas.

segunda-feira, julho 12, 2010

Quem Causa a Causa Primeira?

A pergunta sempre aparece nas conversas do dia-a-dia. Alguém dá o argumento da causa primeira para provar que Deus existe e o outro retruca: “E quem causou Deus?”. Minha conclusão: o argumento foi ou mal entendido, ou mal apresentado.

Tudo o que existe precisa de uma causa. Portanto, para não se regredir ao infinito, é preciso uma causa primeira. Essa causa primeira é Deus. Convencidos? Eu não estou. Se tem uma coisa que esse argumento não prova é a existência de Deus. O ateu sagaz já percebeu: “Bom, se tudo precisa de uma causa, então Deus também precisa. E se nem tudo precisa de uma causa, por que o universo precisaria?” Vamos esclarecer melhor o ponto, pois nele escorregam muitos apologetas. Bem sei que nenhum ateu sairá da discussão convencido e rumo à igreja; mas o fortalecimento da base racional da fé tem sua importância nesse processo.

Ao argumento. A princípio, não se afirma que tudo precisa de uma causa; isso não é uma premissa. Analisando os seres do universo, como homens, cavalos e prótons, veremos que eles precisam de uma causa. O que os caracteriza? É o fato de que sua essência é diferente de sua existência. Termos estranhos, que precisam ser explicados e justificados para que saiam do campo dos contos de fada e entrem na filosofia. Dizer que a essência de um cavalo difere de sua existência significa dizer que mesmo que se conheça perfeitamente o que o cavalo é (digamos, a descrição perfeita de seu DNA com todas as possíveis variações), nem por isso saber-se-á se existe ou não algum cavalo no mundo. Pode ser que todos tenham morrido; pode ser que nunca tenha havido cavalo nenhum. Como descobrir se os cavalos existem? Não é pela mera análise de suas características. Temos que sair pelo mundo à procura deles. Sua existência (o fato deles existirem) não é dedutível de sua essência (o que eles são, a descrição de suas qualidades). Assim como penso em cavalo, posso pensar em unicórnio. Um existe e o outro não. Mas não há nada nas idéias de um e de outro que me diga isso.

Todos os seres do universo são que nem o cavalo e o unicórnio. Suas existências não estão dadas por suas essências. Chamamos a esses seres de contingentes: podem existir ou não existir. Logo, o universo, que é o conjunto, a complexa malha causal que une todos os seres, também é contingente. Ele poderia ser diferente do que é, e mais, poderia simplesmente nunca ter existido.

Todo ser contingente precisa de outros seres que o gerem e preservem. O cavalinho precisa da égua e do garanhão para nascer, e do feno para comer. O universo também. Se ele poderia tanto existir como não existir, é preciso um fator externo a ele que faça com que ele exista. Ou esse ser que causa o universo também é tal que sua existência seja distinta de sua essência, o que não resolve nosso problema (pois ele também precisa de uma causa), e podemos simplesmente classificá-lo como parte do universo; ou esse ser é de tipo diferente: ele é tal que sua existência está contida em sua essência. Se o conhecêssemos perfeitamente, concluiríamos sem sombra de dúvida, dedutivamente, que ele existe. Não é um mero ser contingente, e sim um ser necessário; um ser tal que seria impossível que ele não exista, pois isso contrariaria sua própria essência.

Não conhecemos diretamente o ser necessário para concluir sua existência a partir de sua essência. Mas dado que existem seres contingentes, o necessário tem que estar na origem do processo, se não ele nunca teria um motivo para começar (pois o motivo precisaria de um motivo e assim por diante). Este é o núcleo do argumento, e é o que deve ser discutido; notem que Deus nem deu as caras.

O último passo, que é o que gera objeções imerecidas, é dizer: “este ser é Deus”. Estamos só dando um nome ao ser necessário. Poderia ser “Javé”, “Alá”, “Rama”, “Google”. O problema verdadeiro reside no passo anterior, que é dizer que sem o ser necessário não poderia haver seres contingentes, afirmação com a qual concordo. Negá-la seria dizer que do nada absoluto pode aparecer um universo, o que basicamente obriga-nos a aceitar que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento, e que nosso raciocínio, com base nas idéias de causa e efeito, e os princípios básicos da lógica que guia nossos pensamentos, não têm relação nenhuma com a realidade. E nesse caso, não só a prova do ser necessário seria falha, como mesmo toda a ciência e todos os nossos pensamentos seriam incapazes de nos comunicar qualquer coisa de verdadeiro.

Chamar o ser de "Deus" só aponta para o fato de que esse necessário concorda em gênero, número e grau com o que os teístas dizem a respeito do Deus no qual acreditam: ele é a causa de tudo, nada existe independentemente dele e é impossível que ele deixe de existir. O filósofo e o crente estão falando da mesma coisa; esse reconhecimento é, em geral, ponto pacífico; a questão é saber se o argumento que o filósofo está fazendo procede.

terça-feira, julho 06, 2010

Meditações Futebolísticas

Um dia negro foi a sexta passada nesta maldita Jabulândia. Queria ver bandeiras a meio-pau, roupas pretas e luto público; revolta popular e banho de sangue cairiam bem. Os jogadores que voltam para casa são desertores vergonhosos, culpados de alta traição; já para o pelotão! Minha geração nunca tinha passado por duas derrotas seguidas na Copa; é desumano. Naqueles últimos minutos... ah, os últimos minutos! No peito, o desejo de estourar uma bomba e estragar o dia de alguém. Calma. Respire fundo e conte até dez. Quase que a alma vai embora junto do hexa.

O que tem o futebol que mexe assim com os ânimos? Há o gosto universal pela competição e pela adesão a um grupo, claro. Mas por que o futebol e não outro esporte? Algumas características o distinguem. É um jogo de times (representam algo maior do que um indivíduo, como um tenista, que só muito secundariamente representa seu país), dinâmico, barato de jogar, estratégico mas com espaço para o talento individual. Acho que o aspecto essencial, contudo, é que pontuar é difícil. Um gol no futebol vale muito mais que uma cesta no basquete ou um ponto no vôlei. Nesses, a não ser que seja no momento da decisão, pouco importa uma pontuada, e por isso o jogo é menos empolgante. No futebol, há muito menos pontos, mas a possibilidade do gol sempre existe, o que cria uma tensão permanente. Um gol muda tudo, e por isso a explosão de alegria (ou ódio, ou frustração) quando acontece. Uma consequência disso é a possibilidade real da zebra: pequenos deslizes aqui ou ali dão a vitória ao time mais fraco; um gol na hora errada desmoraliza uma equipe forte e bota tudo a perder. A garra e a raça importam tanto quanto o talento, a estratégia e a técnica. O único que pode concorrer com o futebol em matéria de espetáculo público é o futebol americano - a tática amarradíssima e o mérito individual extraordinário na corrida rumo ao triunfo que é o touchdown; um jogo de gigantes. Mas o alto custo é um grande obstáculo a sua universalização.

Só consigo torcer de verdade na Copa. Cada seleção representa uma história, uma cultura, um povo, uma raça. Cada povo coloca ali os seus melhores para um duelo altivo, orgulhoso, uma verdadeira guerra patriótica onde nada menos que a honra de nações inteiras está em jogo. Claro que essa bela ilusão só perdura enquanto olhamos de longe. Chegando perto, que diferença! Quem são os franceses da França? E os alemães da Alemanha? E, mais grave, que tipo de gente compõe essa aristocracia esportiva? Olhem a cara de um Rooney e digam se ele aparenta qualquer traço de civilidade. De hedonismo troglodita talvez? A gota d’água é a glorificação das imagens dos craques nas campanhas publicitárias, na FIFA e na ONU. Beckham, Zidane, Ronaldo, astros Nike e Pepsi, modelos da juventude, nossos heróis; pose, atitude, aparência, mediocridade; a essência do marketing. A maioria deles nem sequer leva o país a sério, dando mais valor aos contratos com os times comerciais. Se Kaká se quebra na Copa, adeus Real Madrid.

O que me traz ao tema insondável da relação do torcedor com seu time, que não se associa a nenhuma população ou a o quer que seja. O que leva um paulistano a ser são-paulino, corintiano ou palmeirense? Os jogadores de cada time não obedecem a nenhum critério de origem; não há divisão por bairro, por etnia, por profissão, por nada. No passado, o Palmeiras era um time da imigração italiana; fazia todo sentido, então, que o descendente de italianos fosse palmeirense. Hoje ninguém representa nada. Quem ontem era de um time hoje é de outro. São só camisetas coloridas e publicidade. Simples assim. Quando assisto a um jogo de times, descubro para quem torço só durante a partida, o que pode inclusive mudar ao longo do jogo, tão subjetivo e aleatório é o torcer. É como escolher uma marca, Coca ou Pepsi, sem que haja refrigerante a ser provado. Prefiro Coca porque acho o gosto melhor; quem torce prefere seu time porque... o prefere; porque os pais torcem, porque os amigos torcem, porque ganhou um campeonato; nenhum motivo diretamente ligado ao torcedor. Devo admitir: sou santista - mas santista não-praticante! Se ouço dizer que o Santos vai bem, meu coração é tomado de uma leve alegria, que beira a indiferença. Há quem chore, grite, urre de alegria, brigue, mate e morra de frustração. Ou o homem é um bicho irremediavelmente esquizofrênico, ou há aí uma carência por algo maior, mais real, pelo qual sonhar, matar e morrer.

quinta-feira, julho 01, 2010

Duas Visões do Mal

Duas maneiras de encarar o mal não necessariamente contraditórias mas contrárias em espírito: uma o enxerga nos fins, a outra nos meios. É possível conciliá-las até certo ponto, mas em última instância uma domina a outra. Qual delas vence em cada mente creio depender mais do temperamento e da visão de mundo básica do que de algum argumento decisivo.

Para o partidário do mal dos fins, o mal do mundo é fruto de homens que, em conspiração, encaminham tudo para seus objetivos perversos, arrastando consigo uma multidão que percebe muito pouco, com maior ou menor clareza, do processo em andamento. Ele enxerga o mal agudo, concentrado, seja nos comunistas infiltrados, nas ONGs progressistas, nos grupos de mídia, na alta burguesia, nos maçons, nos judeus, nos jesuítas, no movimento islâmico global, no capital internacional ou nas farmacêuticas.

Já o partidário do mal dos meios o vê melhor distribuído. Para ele, o mal consiste na incompetência, preguiça, vaidade, inveja, enfim, nos vícios comuns que a todos permeiam. Seu efeito independe de conspirações, que podem até existir, mas são apenas uma ponta menor do espectro - agora ocupada por A, amanhã por B, que terá outros planos - que continuará sempre o mesmo. O grosso dos homens vive como sempre viveu, “casando-se e dando-se em casamento”, sem dar a mínima para idéias e ideologias; as mudanças são superficiais, pois permanece a mesma natureza. Todos os desígnios, bons e maus, tendem a resvalar para a mesma modorrência mesquinha de sempre, engolidos por um processo implacável de entropia moral.

Se o dos fins estiver certo, então o mal entrópico dos meios é um fenômeno de menor importância, pois acomete apenas as massas de manobra que as grandes mentes da humanidade, os reais motores da história, usam para concretizar seus ideais. No fim das contas, é quem escapa da entropia que faz a diferença, dedicando-se com habilidade e devoção completa a algum projeto. Esses escrevem a história; os demais são escritos.

Se o dos meios estiver certo, então mesmo a conspiração mais funesta não consegue botar seus planos em prática com a eficácia que gostaria, pois a preguiça, o desleixo e a vaidade afetam também a seus agentes. O mau profundo que alguns gostariam de instaurar (que na visão deles é o bem) não é o mau corriqueiro que acabam produzindo. Vide a revolução socialista do PT. Tudo converge para uma distribuição normal cuja média é negativa ou positiva dependendo do nosso pessimismo ou otimismo, mas nunca distante de zero. Os monstros são poucos, e muitos os sacaninhas.

O grande problema de ver o mal nos fins é transformar a moralidade no ter a opinião correta. Bom é quem defende as causas boas; mesmo que isso não se traduza em virtudes vividas. Quem olha para o mal dos meios, a não ser que seja muito cego, percebe o quanto fica aquém do que poderia ser. Seu risco é cegar-se para o efeito real que crenças e ideologias podem ter, devido à suposição de que todos têm, mal disfarçados por trás das crenças manifestas, os mesmos interesses fisiológicos. Quem se foca no mal dos fins está mais consciente dos movimentos do tempo e é menos sujeito a servir de besta de carga bem-intencionada de uma cultura maléfica.

Tendo espontaneamente para ver o mal nos meios, o que significa aceitar que ele é sempre mais comum e menos interessante, e próximo de casa, do que gostaríamos; e também que podemos confiar, em geral, na boa intenção, mas raramente na capacidade, alheia. Para compensar, preservo uma saudável intransigência nas opiniões. Nada de escorregar involuntariamente para algum plano maligno! A entropia moral é um fato vivido, e vejo-a atuando inclusive nos grandes nomes da história. Não é impossível agir com base em filosofias e ideologias distantes do curso da natureza (sem pessimismo: lembre-se que a natureza é, em si, boa); mas é difícil. É possível sair da entropia? É. Alguns saem. Virtudes, talentos naturais, pura força de vontade, graça divina; não sei como, mas volta e meia nos deparamos com algum santo ou gênio produtivo que nos mostra claramente tanto o tamanho do buraco quanto a possibilidade de atravessá-lo.

segunda-feira, junho 28, 2010

Salvem as crianças!

Quando o assunto é criança, a racionalidade - especialmente dos pais - não tem vez. Tudo vale a pena “pelo bem das crianças”. Nenhum sacrifício é grande demais, nenhum inconveniente é relevante, a própria análise de custo-benefício é moralmente suspeita. A indústria de artigos para bebês bem sabe disso, e sempre inventa novos produtos “essenciais”, que os pais ansiosos (especialmente os de primeira viagem - meu caso) comprarão sem hesitar. Como será que os bebês sobreviveram por tantos séculos sem nossos 60 tipos de fralda e 300 variedades da chupeta? Sem falar nos CDs educativos para recém-nascidos.

Mas tem coisas que nem o pai mais desesperado do mundo deveria engolir; a lei da cadeirinha nos automóveis é uma delas. A partir de primeiro de setembro, será obrigatório, no transporte de crianças de até sete anos e meio, levá-las numa cadeirinha que é instalada no banco traseiro, e que vem em três tipos, um para cada faixa de idade. Sim, sete anos e meio.

Primeiro ponto: é claro que a cadeirinha aumenta a segurança em caso de acidente. Assim como andar na rua de capacete e colete à prova de balas diminui o risco de se ferir gravemente ou até morrer (tropeções, assaltos, balas perdidas, meteoritos; nunca se sabe). Um toque de recolher às 10 da noite (o que um homem de bem faria na rua a essa hora?) também seria ótimo para a segurança. Aliás, o melhor seria ficar sempre em casa, e só sair em casos emergenciais. Evitaríamos muitas mortes.

Só que evitar mortes não é tudo; existem milhões de considerações relevantes. Cada medida de segurança traz consigo um custo (dinheiro, perda de tempo, dor de cabeça), que pode ou não superar o benefício esperado. Botar o cinto de segurança tem um benefício esperado positivo e o custo é quase nulo, então sempre ponho. Mas algumas vezes, quando vou atrás num carro que não é meu, o cinto está enfiado embaixo do banco. Nesse caso, o trabalho de ter que levantar o banco e pedir para o meu amigo parar, na minha opinião, supera a segurança adicional que eu teria durante o traslado e a sensação reconfortante que o cinto oferece. Posso estar errado, e um acidente terrível acontecer bem dessa vez; ninguém é onisciente. Mesmo assim, pela minha estimação (o trajeto é curto, meu amigo guia bem, não correremos), a segurança extra não compensa o estorvo.

Outro cenário: sua tia-avó vem para o almoço, e ela faz questão de comer sorvete de papaia na sobremesa. A quinze minutos dela chegar, você abre o congelador e constata horrorizado que o sorvete acabou. Considere que há dois jeitos de guiar o carro até a padaria: cautelosamente, que é mais seguro, ou temerariamente, o que aumenta o risco de acidente, mas é mais rápido. Em condições normais de temperatura e pressão, você, sujeito sensato, minimizaria o risco de morte; mas com a tia-avó a caminho, cada segundo é precioso. Aceitar o risco extra é perfeitamente racional: você sabe que o percurso é curto e confia na sua destreza ao volante; sabe que, mesmo guiando apressado, o risco é baixo. E voilà, volta são e salvo com o troféu de papaia em mãos.

Se até coisas básicas como cinto e direção cautelosa admitem exceções, quanto mais o trambolho que são as cadeirinhas infantis. Tiram um assento útil do veículo, são caras (o bebê-conforto, que é o assento para bebês muito pequenos, custa uns 200 Reais) e chatas de instalar. Isso para quem tem um filho. Quem tem três pode desistir de passear legalmente com a família completa. Quando eu era bebê, minha mãe me levava no colo e, a partir de uns 3 ou 4 anos de idade, eu ia atrás sozinho, muitas vezes sem cinto (para poder deitar) - era ótimo e cá estou, vivo. Hoje em dia, as enfermeiras da maternidade cometeriam suicídio em massa se eu sequer levantasse a possibilidade de transportar o bebê da forma antiga. Por causa da nossa neurose por segurança e saúde, quem não adere aos novos produtos e medidas é visto como um monstro sem coração. Um fenômeno social problemático, mas até aí tudo bem; ninguém é obrigado a seguir a opinião pública. É quando ela vira lei positiva que se torna inaceitável. Vamos admitir em alto e bom som: sim, há situações em que um minúsculo acréscimo na insegurança dos filhos se justifica por outros benefícios. E digo mais: todo pai minimamente são do planeta concorda comigo. Levar o filho a um restaurante aumenta suas chances de contrair doença; mas os benefícios de fazê-lo em geral superam esse risco adicional. QED.

É sintomático da nossa cultura que o único debate acerca da lei seja entre os que querem aplicá-la apenas a veículos de passeio e os que querem aplicá-la a todos os veículos (ônibus, táxis etc.). É inócuo, mas ao menos explicita o absurdo a que ela nos obriga, pois ou se aplica-a arbitrariamente a apenas alguns casos, ou se chega a situações obviamente estapafúrdias, como um ônibus comum perdendo assentos úteis para instalar cadeirinhas que ficarão sub-utilizadas. E se chega uma criança quando todas já estiverem ocupadas? Ficam ela e o pai barrados na porta? E o taxista, vai guiar por aí com as três variedades de cadeirinha no porta-malas? Um leve inconveniente.

Alguns objetarão que os acidentados custam para a saúde pública, e portanto a lei é bem-vinda. Antes, todos pagavam por um número X de acidentados. Agora, todos pagarão por um número menor, mas há, em contrapartida, o aumento do custo dos pais em comprar e instalar (e desinstalar, e instalar de novo) as cadeirinhas. O custo total é maior ou menor? Impossível saber (não que o governo tenha sequer tentado). Mas podemos ter certeza de que continuará a faltar dinheiro para a saúde, cujos gastos abusivos e onerosos devem-se ao eterno problema da saúde pública... o fato dela ser pública. Uns usam, outros pagam, a sociedade perde. Não se corrigirá esse problema sistêmico com leis punitivas para quem possa vir a precisar dos serviços médicos. A real solução, que é também a mais justa, é a única que o sistema não pode aceitar: cada um pagar pelo que utiliza.

Pesamos riscos e oportunidades, custos e benefícios, a todo o momento. O que vale numa situação pode não valer em outra. Se a pessoa julga que um dado benefício supera o risco que ele traz, isso é uma decisão dela e que só ela pode fazer, pois é ela que auferirá os ganhos e arcará com os prejuízos de suas escolhas. Eu usaria o bebê-conforto se não fosse obrigatório? Provavelmente. E a cadeirinha para o bebê de três anos? Provavelmente não. Outras pessoas prefeririam diferentes soluções, o que é ótimo: cada um toma as precauções que julgar cabíveis em suas condições específicas. O justo é também o eficiente.

terça-feira, junho 15, 2010

Livre mercado para além do mercado

O homem é podre, um mentiroso e trapaceiro contumaz, que estupraria e mataria sem remorso se lhe fosse dada a possibilidade de fazê-lo sem ser pego. É apenas o medo da cadeia (foi-se o tempo em que o medo da punição divina valia para algo) que nos mantém a um passo da auto-destruição final. É isso mesmo?

Bom, então considere a seguinte situação. Semanas atrás, precisei de um adaptador de tomada (graças ao novo padrão imposto pelo governo para sanar um problema inexistente). Fui até uma lojinha de material elétrico próxima, mas eles não tinham; o vendedor me indicou uma outra loja na rua. Notem, ele não precisava ter feito isso; essa outra loja é sua concorrente em vários serviços. Fui à nova loja, e vi que o melhor era comprar logo uma tomada nova. Só não sabia se era uma de 10 ou 20 amperes. Solução? O vendedor me deixou levar a de 10, testá-la e, se não fosse, trocar pela de 20. Novamente, algo que ele não precisava ter feito.

Ações que, no curto prazo, parecem danosas à loja (vender uma tomada ao invés de duas), no longo prazo compensam (ganhar a confiança do cliente). E são fatos absolutamente banais e corriqueiros no mercado, como qualquer um sabe. Os homens não são crápulas sempre à procura de uma oportunidade de engambelar o incauto. O nosso modo de vida é baseado na cooperação, e essa não é forçada ou dissimulada, mas voluntária e em geral sincera, caso contrário não funcionaria. A idéia do egoísta esclarecido que se comporta exatamente como um homem bom exclusivamente por motivos egoístas é um mito; caráter e ações não são realidades separadas. O mercado é exatamente o processo pelo qual essa ajuda mútua é facilitada e incentivada, pois harmoniza o bem de cada um com o bem dos demais. A confiança e a confiabilidade são remuneradas, e as práticas anti-sociais punidas.

Claro, isso não garante que todos serão bons. A minha compra de tomada estava, por exemplo, ligada à compra de uma lava-louça cuja instalação deu um enorme problema, custando muito tempo e dor de cabeça em conversas frustrantes com o SAC da empresa. E isso se explica. Empresas grandes têm que ter uma política padronizada de trocas e outros serviços gratuitos para impedir que, de pequenas decisões generosas de muitos vendedores e atendentes, emirjam grandes prejuízos. Mas mesmo nelas, na medida em que têm que sobreviver no mercado, o que prevalece é a cooperação. Vejam só: saindo uma vez do caixa do McDonalds com o almoço na bandeja, derrubei o refrigerante no chão. Qual a reação dos atendentes? Deram-me um novo. Eles sabem que brigar por migalhas é prejudicial para eles próprios, mesmo que isso lhes custe uma Coca. E até no caso da lava-louça, no final das contas, a empresa responsável pela instalação forneceu a peça nova.

São exemplos casuais - cada leitor terá vários - que ilustram um fato antropológico e moral. O homem não é um calculista a espera da primeira oportunidade de passar a perna. Quem age assim prejudica a si mesmo; confiança e boa vontade são características muito difíceis de se dissimular ao longo do tempo, e constituem parte importante do capital humano. Quanto menos confiança, mais advogados, juízes, contratos, e menos possibilidades de transação; tudo isso tem um custo, não apenas monetário. Por outro lado, boas relações resolvem problemas de ambos os lados e deixam todos felizes, criando laços de boa vontade. Como Aristóteles já apontara, o fazer negócios juntos, a harmonia de utilidades, estabelece entre as partes um tipo de amizade.

A cooperação livre entre os homens é um fato; é um fenômeno que emerge naturalmente, sem qualquer necessidade de uma autoridade estatal para regular, controlar, medir e definir (o que só congela e endurece o que deveria ser fluido e flexível para melhor se adaptar às infinitas circunstâncias dos homens). E essa cooperação se dá em todos os níveis da sociedade; não é privilégio da “elite”, embora seja isso mesmo que vai acontecer se o governo continuar a dificultar e proibir a existência de versões mais baratas e populares; se o padrão mínimo legal for o Golf, não existirão nem Gols, nem Fuscas, nem Brasílias; mais gente andará a pé.

Mais um exemplo banal: um dia, indo para o aeroporto, vi num trecho ao lado esquerdo da marginal, acho que junto a uma rampa, barracos num espaço muito estreito. Um deles, apertado entre os demais, era uma barraquinha de comes e bebes. Está aí a força vital do espírito humano, que não deixa de inventar soluções nem sob as condições mais inóspitas. A condição do lugar era, para nossos padrões, deplorável; mas aquela barraquinha tornava-a um pouco melhor. Não seria um crime matá-la com regulamentações as quais, obviamente, o dono nunca seria capaz de obedecer? Pois o momento em que um fiscal do governo passasse por lá seria o momento em que aquele pequeno oásis deixaria de existir. Ainda bem que o governo não vê tudo, e que existe a corrupção! Imagine se as regulamentações e tributos do país fossem seguidos sempre e à risca; camelôs, vendedores piratas e, enfim, todo o mercado informal, que beneficiam tantos consumidores e empregam tantos trabalhadores, sumiriam. Hoje em dia, eles funcionam fora da lei; e - surpresa! - funcionam. Sem decretos políticos, sem vereadores e deputados inúteis, o Promocenter ia muito bem obrigado.

Quando o dinheiro sai da jogada, fica ainda mais claro. Vejam o couch-surfing: pessoas disponibilizam suas casas para viajantes se hospedarem de graça, e sabem que, quando viajarem, também encontrarão pousada. O único sistema de controle são as opiniões dos próprios usuários publicadas no site. Qualquer um pode se cadastrar. E adivinhem: funciona muito bem, como um amigo meu que já hospedou gente do mundo inteiro pode garantir. Haveria algo mais contrário ao espírito dessa rede do que se o governo decidisse “regulamentá-la”, criando requisitos mínimos para as casas (“devem ter pelo menos dois banheiros e um sistema de combate a incêndio certificado”) e para os viajantes (“devem enviar, duas semanas antes da visita, cópia autenticada do passaporte e trazer inventário da bagagem pessoal”)? A quantos seriam reduzidos os membros dessa comunidade vibrante? Pois a mesma destruição burra ocorre em tantos outros serviços; a diferença é que estamos acostumados e não percebemos o quão melhor eles poderiam ser. Por que absolutamente todo estabelecimento comercial deve ter uma lixeira na frente? Por que um shopping precisa de 5% de vagas para idosos? Por que toda vitrine deve ter tarja sinalizadora? Soluções pontuais são transformadas em imposições ossificantes; o que é inteligente em alguns casos pode ser estúpido se transformado em lei universal.

Trata-se de um problema de mentalidade, que afeta todos os políticos, burocratas, legisladores, advogados e engenheiros sociais que acreditam que suas definições mal-escritas num pedaço de papel criam e ordenam as relações humanas; quando na verdade as corrompem e destroem. A imensa maior parte da classe política brasileira não só é inútil como prejudicial à nação. Ao invés de punir os crimes (roubos, fraudes), querem prever e delimitar o que é mutuamente benéfico, limando de imediato todas as manifestações que escapam a seu olhar estreito.

O número de impostos, de encargos, de regulamentações e de regras aos quais estamos sujeitos (e mesmo assim, pode ter certeza que se um fiscal quiser, ele encontrará alguma infração - são 85 tributos e dezenas de milhares de leis) não nos afetam apenas na “esfera econômica da vida”, como se a vida humana fosse divisível em partes estanques, e como se o trabalho e o consumo fossem realidades menores, de pouca importância. A guerra de independência americana foi travada por muito menos. E ainda se acredita na mentira de que a liberdade interessa aos ricos. Isso é falso. O liberalismo econômico não é o sistema das grandes empresas, dos grandes bancos, dos tecnocratas. Claro, algumas grandes empresas seriam beneficiadas com um mercado mais livre; mas elas não seriam as maiores ganhadoras, mesmo porque muitas recebem ajuda do governo, seja direta (concessões, subsídios) ou indireta (as regulamentações infinitas e encargos pesados que impedem a existência dos pequenos). O principal beneficiário do liberalismo é todo homem honesto em suas relações cotidianas, que estão cada vez mais burocratizadas por um sistema desumano que demanda sempre mais recursos para se sustentar.

Ser livre significa, enquanto consumidor, poder escolher aquilo de que mais gosta na gama de preços e qualidades compatível com sua própria renda; enquanto produtor, poder trabalhar no que quiser, e prover que serviço quiser, da melhor forma que souber, sem que ninguém lhe impeça; e, enquanto ser humano, viver de acordo com o que se considerar o melhor sem ser impedido por ninguém e sem impedir ninguém de fazer o mesmo. Sem precisar de aprovação por qualquer órgão que seja, apresentar documento algum e nem emitir nota fiscal, pois o fisco não tem direito nenhum de saber o que você faz da vida e muito menos de puni-lo se for bem-sucedido. A liberdade permite que, ocasionalmente, alguém aja mal? Sim. E para alguns desses casos (os que violem direitos alheios) existem as leis e os tribunais. Mas, e isso é muito mais importante, é só ela que permite que os homens ajam e vivam bem, e que criem soluções novas e adaptem antigas para seus problemas e melhorem todas as esferas (não apenas a econômica, o comércio e a venda de ações) de sua existência.

quarta-feira, junho 02, 2010

Nem tudo funciona

Seria Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works) um manifesto pessoal do próprio Woody Allen, talvez uma autojustificativa? Seja como for, não funciona, ao menos para mim. A casca atrativa e talentosa de qualquer obra que saia das mãos do diretor cobre incoerências e desonestidades que botam o todo a perder.

Boris (cujo ator, tanto fisicamente quanto na fala, lembra muito o diretor) é um velho gênio da física, fracassado, divorciado, sem Nobel, que vive sozinho e se sustenta ensinando xadrez para crianças só para humilhá-las; tentou o suicídio mas até nisso fracassou. Eis que, por um enorme acaso (o motor dos filmes de Woody Allen), cruza seu caminho a linda e jovem Melodie. Fugida de sua casa no Mississipi, perdida e desnorteada na Big Apple, convence-o a deixá-la passar uns dias com ele até arranjar emprego. Uma amizade improvável se estabelece, e Melodie, embora ingênua, revela-se uma ávida pupila, que absorve entusiasticamente a cosmologia niilista do velho mestre sem deixar abalar sua alegria e bondade naturais.

Os dias viram meses, a amizade vira amor e eles se casam. A vida transcorre perfeita até que a mãe de Melodie, Marietta, recém-abandonada pelo marido, encontra-a em Nova Iorque. Inicialmente, essa cristã fundamentalista (no estilo evangélico americano de ser: bem-intencionada e moralista, expansiva e desastrada) é só atrito com Boris e seus amigos boêmios. Mas muito em breve ela segue o caminho da filha: cede às tentações do liberal life-style nova-iorquino e, poucas taças de vinho depois, consagra-se como fotógrafa pornô-conceitual e divide a cama com dois homens. Agora é a vez do pai de Melodie, que chega em busca da ex-esposa. Felizmente, sua dor em perdê-la – não para um, mas dois ex-hippies – dura pouco: afogando as mágoas num bar, deixa aflorar o homossexualismo reprimido e descobre o amor verdadeiro num quarentão bem-apessoado.

Se até agora parece um show de horrores, Woody Allen faz com que não seja. Há certas qualidades (podemos chamar de “mínimo estético”) com as quais sempre podemos contar em seus filmes. Em algum nível ele funciona: história bem contada, boas tomadas de Nova Iorque, gente bonita, diálogos espirituosos, tipos bem construídos, algumas percepções iluminadas. O que revela o talento artístico de Marietta são as fotos caseiras que ela tirara da filha nos concursos de Miss. Um intelectual pretensioso considera-as geniais, “primitivistas” (nesse momento ainda não se sabe se a opinião é sincera ou só uma manobra para levá-la para a cama – aliás, bem-sucedida). E mesmo depois de sua transformação, a mãe preserva o mesmo projeto pessoal: separar a filha do perdedor geriátrico com quem se casou e juntá-la a um jovem promissor que conhecera nos primeiros dias na cidade. Certas atitudes demasiado humanas perpassam todo o espectro teológico-político, e o filme aponta-as com graça e perspicácia.

O plano materno dá certo: a menina se apaixona novamente e deixa Boris a ver navios. Ele tenta se matar mas falha novamente: pula da janela e cai sobre uma desconhecida com quem terá um novo caso. A cena final é uma festa de ano-novo entre os personagens, todos de bem com a vida: homossexualismo, poliandria, troca de parceiros; o que funcionar para cada um. Boris nos dá seus pensamentos finais: não existe ninguém “lá em cima”. O importante é cada um encontrar sua felicidade, sem dar muita bola para regrinhas moralistas. Mas algo não está certo. Estaria Woody sendo irônico, pregando-nos uma peça com esse final de sitcom e com esse acaso que a todos salva? Saí do cinema sem saber. Mas para que o filme não seja um mero exercício em pointlessness, tem que haver algo de genuíno na mensagem, mesmo que aceitemos que ele ridicularize também a intelligentsia nova-iorquina em suas pretensões artísticas e filosóficas. Boris, o cientista, vê além delas e enxerga o absurdo da existência; mas se compraz verdadeiramente de que todos tenham encontrado sua felicidade.

Por baixo de Whatever Works esconde-se o anything works. A tradução brasileira fugiu à letra do título mas captou seu espírito: Tudo Pode Dar Certo, com ênfase no “tudo”. O resultado é incoerente: niilismo cósmico temperado com um pueril “cada um é feliz à sua maneira”, que não consiste no hedonismo carnal (o que seria moralmente detestável, concordo, porém consistente), mas num estado sentimental: estar apaixonado e se sentir acolhido. Nesse ponto Woody Allen ficou atrás do Orkut, que hospeda já há anos a comunidade “niilismo miguxo”, cuja mistura de Nietzsche e Hello Kitty! no fundo cor-de-rosa representa muito bem o espírito do filme. A incoerência das idéias reflete-se na incoerência da rabugice gostosa e bem-humorada do personagem central que, imagino, seria amargo e desagradável se existisse na realidade (mais aos moldes do verdadeiro Woody Allen). No mundo do filme, ninguém tem ciúmes nem mágoas, ninguém desgosta de ninguém, ninguém trabalha mas são todos independentes, não há escolhas erradas, culpa e nem remorso; é tudo na base do amórrr (sem consequências, claro) e do bom humor. Parece realista?

Já que se encarna o espírito de “no regrets”, “faz o que tu queres, pois é tudo da lei”, por que não levá-lo a sério, e mostrar versões alegres do incesto, da bestialidade e da pedofilia? Não funcionaria? Então existem critérios objetivos que determinam o que pode funcionar? Faltou coragem de enfrentar a questão, e essa timidez desonesta é o ponto fraco no cerne da obra. Na minha opinião, a coisa seria muito mais interessante, em vários níveis, se Melodie fosse a filha adotiva de Boris.

segunda-feira, maio 10, 2010

Válvula ou arame

Freud ou Aristóteles: dois modelos de funcionamento humano - válvula hidráulica ou arame entortável. São duas perspectivas em alguma medida conciliáveis, mas na prática bastante contrárias, de se encarar os efeitos da ação no agente. Teste para ver em qual você se encaixa: quando o sujeito é mal-tratado continuamente, e vai acumulando toda aquela raiva aos poucos, o que ele deve fazer? E quando o desejo sexual fica incontrolável, e ele só pensa nisso, como libertá-lo da obsessão?

Quem responde algo na linha de extravasar e aliviar a tensão pensa como Freud (não sei se o verdadeiro Freud ou o Freud dos gibis que chegou até mim via cultura popular; mas é só um nome), e segue o modelo da válvula hidráulica: não pode ficar nem muito cheia nem muito vazia. A válvula da raiva está até a borda? Melhor liberar essa tensão para a máquina não explodir ou o câncer não aparecer.

Não vou negar que tenha sua validade. Aliás, para algumas funções ele parece perfeito. O tubo digestivo, da entrada à saída, é isso mesmo: tubo. Bebeu bastante? É hora de fazer xixi. Mas a válvula não conta a história toda. Coma até se saciar; e depois de novo, e o faça sempre, coma até se satisfazer plenamente. A mudança será gradual, mas depois de um ano, na barriga onde cabia um Big Mac, caberão três; e na calça onde cabia um de você agora cabe 1/3. Pouco a pouco, o lanche pequeno dos americanos tornou-se o nosso gigante.

É aqui que entra Aristóteles e o modelo do arame (a pobreza da imagem é por minha conta). Todo ato consciente tem um efeito no caráter (as disposições constantes que nos levam a agir dessa ou daquela maneira) do agente: quem nunca reparou que, quanto mais se dorme e se demora para sair da cama, mais difícil fica levantar? E quanto mais se come, mais guloso se vira. Isso num nível sub e quase extra-racional. Para trazer o ponto a uma esfera com maior influência do intelecto, cada vez que se vai além de um limite previamente proposto cria-se um incentivo psicológico para violá-lo sem restrições futuramente: “Já fiz isso da vez passada; qual o problema?”. Cada novo ato também muda nossa percepção de nós mesmos. Se entrei de vez na lagoa fria, vejo-me como alguém capaz de fazê-lo; se não entrei, a própria lembrança do fracasso passado serve de obstáculo para tentar futuramente. Antes de cometer o crime, tudo é possível, eu ainda não estou determinado; depois, já me vejo como um assassino, ou um ladrão, e não tem mais volta.

Um arame fica do jeito que você dobrá-lo. O caráter humano também: vá pressionando ele numa direção que ele acaba se entortando. A válvula tem sua aplicabilidade? Tem. Extravasar a raiva tem efeito calmante no momento seguinte; e quando satisfazemos o desejo sexual nos sentimos livres dele. Mas esses não são os efeitos principais, de longo prazo. A pessoa que explode de raiva, e que aceita explodir de raiva, é justamente aquela que cria a tendência a ficar cada vez mais raivosa mais facilmente. E quem sempre satisfaz o impulso sexual fica cada vez mais dependente e viciado nesse prazer, e portanto menos livre, e mais escravo, dele.

A válvula hidráulica tem sua validade, num horizonte de uma ou duas horas. Mas esse modelo “The Sims” do comportamento humano não dá conta do longo prazo. No horizonte existencialmente mais relevante de uma vida, o que prevalece é o arame entortável aristotélico. No longo prazo, o que liberta é o auto-controle. O carro precisa de bons freios para chegar longe.

quinta-feira, maio 06, 2010

'A Estrada' e a natureza humana

Humanidade: hecatombe moral?

A premissa de A Estrada é simples: algum desastre não-especificado destrói a Terra: o céu fica cinza, há terremotos intermitentes e chuvas de fogo e poeira à noite. Toda a vida vegetal perece e a civilização colapsa irremediavelmente. Tudo o que resta é lutar para não morrer de fome coletando restos e enlatados cada vez mais raros e evitar tornar-se vítima do estupro e canibalismo onipresentes. Mulheres e crianças são especialmente visadas.

Leva-se às últimas conseqüências o pessimismo de um Ensaio Sobre a Cegueira. Só que em A Estrada, ao mesmo tempo em que a situação é mais desesperadora (a humanidade vai acabar), há, talvez por isso mesmo, mais abertura a uma possível transcendência. Pois o bem ainda resiste: um pai e seu filho pré-adolescente mantêm viva a dignidade humana e caminham para o sul em busca de algo melhor, embora não saibam ao certo o quê. Rejeitam terminantemente o canibalismo e o roubo. Carregam, diz o pai - que, ao mesmo tempo em que oferece esperança, contempla desesperado o suicídio - um fogo dentro de si, que se apagaria se capitulassem à conduta geral.

É uma experiência cinematográfica lúgubre como poucas. O cinza predomina, a atmosfera é de solidão e paranóia; numa cena particularmente chocante num porão escuro, vemos seres humanos num estado de degradação e violação indizível, que nos remete a um horror existencial incomunicável. A humanidade sai mal na foto.

A discussão é antiga: O homem é bom ou mau? As relações humanas consistem, fundamentalmente, em cooperação ou guerra? Aristóteles ou Cálicles? Locke ou Hobbes? No plano teológico: o homem absolutamente perverso em quem a graça deve eliminar a natureza má (Sto. Agostinho em momentos mais pessimistas, a doutrina calvinista da “depravação total”, os franciscanos, Pascal); ou o homem corrompido mas cuja natureza permanece essencialmente boa, sendo papel da graça aperfeiçoá-la (Tomás de Aquino, os dominicanos e jesuítas)? Na economia: Karl Marx ou Adam Smith? O marxismo, ao pintar a vida social como baseada na exploração, tende, na prática, ao pessimismo; já o liberalismo clássico enxergava a prevalência da cooperação, e via o mercado como mecanismo harmonizador dos desejos individuais.

Os pessimistas gostam de se ver como realistas, os únicos que não adocicam a verdade cruel escondida sob a fina e frágil camada da sociabilidade. Será? Discordo. Mesmo em meio à guerra, mesmo onde o braço do Leviatã não alcança (aliás, este sim é capaz do mal numa escala sobre-humana), o que prevalece no mundo real é a vida normal, a cooperação e a coexistência pacífica, ainda que o que venda jornais sejam os crimes. Na Somália sem governo, o mercado de telefonia e a Internet popular floresceram; nas favelas brasileiras há lan houses, bares e lojas. Voltando um século, lembremos que os soldados de ambos os lados na Primeira Guerra, para horror dos comandantes, saíram das trincheiras e confraternizaram na noite de Natal. O homem é capaz do mal, mas esta não é sua vocação e nem sua natureza.

A capacidade agregadora do bem

Mas quem é mau, sem escrúpulos, se dá melhor, não é mesmo? Em situações pontuais, no curtíssimo prazo, talvez. No geral e no longo prazo, o bem é mais poderoso. Falta essa percepção ao filme. Os bandos de canibais eram compostos de assassinos e estupradores. O que garantia sua unidade? A traição e o motim deviam ser medos constantes para homens desprovidos de qualquer sentido de honra, de amor ou de uma causa maior.

São justamente os bons (na medida em que são bons) que têm a capacidade moral de formar e sustentar agregações duradouras e produtivas. Exposta em termos diferentes - menos moralistas - esse ponto faz parte do currículo de qualquer curso de administração. A empresa que não cria uma cultura interna positiva, de respeito mútuo e confiança, que não facilita a comunicação entre as partes, mas que permite ou até incentiva intrigas, falta de transparência e autoritarismo, arca com altos custos inexistentes numa empresa mais sadia, o que pode botar tudo a perder, como no caso da WorldCom. Monastérios (católicos, ortodoxos, budistas) perduram séculos enquanto comunas hippies de amor livre e gangues do tráfico definham em anos; esperávamos o contrário?

Se o cataclismo de A Estrada ocorresse de fato, seria de se esperar que os bons, os mais confiáveis e respeitosos, fossem bem-sucedidos em montar grupos e pequenas sociedades; todos teriam a ganhar. A divisão de tarefas (uns procuram alimento, outros preparam esquemas de defesa, etc) eficiente precisa de um mínimo de confiança e comprometimento. Seriam eles que se defenderiam com mais eficácia. Digam o que quiserem sobre os EUA e Israel, mas é um fato que sua conduta bélica é eticamente superior à dos seus adversários: há práticas que eles se negam moralmente a adotar (terrorismo, homens-bomba, seqüestro, escudos humanos). Será mera coincidência que sejam também militarmente superiores? Os bárbaros, os canibais, as tribos de guerreiros nômades, condenam-se à miséria perpétua, pois a aposta nos ganhos imediatos da falta de escrúpulos (pilhar é mais fácil do que produzir) destrói suas chances de crescer. Um bando armado no qual, na hora de dormir, teme-se que os colegas do dia anterior metam-lhe uma faca no peito para garantirem o almoço de amanhã não é uma instituição particularmente estável.

Portanto, parece-me inverossímil que os maus sejam organizados e poderosos e os bons solitários e indefesos. Notem que nossa situação difere da do filme apenas em grau: todos morreremos, e a espécie humana certamente se extinguirá (ao final do processo irreversível de entropia cósmica, se não antes). Só mudam o número de gerações até essa data terrível (uma ou duas no filme, indeterminadas, provavelmente muitas, no nosso caso). Vamos já para a guerra de todos contra todos? Para quê construir, se dá trabalho e tudo virará pó? É aí que entra a esperança transcendental (não necessariamente religiosa), o reconhecimento de valores que vão além da vida humana, à qual os protagonistas estão abertos, e que os difere da massa de malvados. No fim das contas, é isso que os salva. Tomistas e agostinianos alegram-se em pleno acordo.

terça-feira, abril 13, 2010

O que é hipocrisia?

A lista de pecados (lembrem que o termo “pecado” não tem nenhuma conotação religiosa; significa “ato imoral”) mudou muito de uns tempos para cá. Alguns foram praticamente eliminados: da luxúria, por exemplo, sobraram só o estupro e a pedofilia, o resto tendo se transformado em virtude. Quanto à violência, embora considerada má, a maioria de suas manifestações é sintoma de desvios psicológicos ou estruturas sociais, e portanto fora da esfera moral. Só um ou outro serial killer é realmente mau. E há pecados novos, como os ambientais e sociais. Ambos extremamente convenientes, pois via de regra não se identificam a nenhum ato específico, e portanto ou estão sempre nos outros e nunca em nós, ou, mesmo quando admitidos, não implicam grandes mudanças de vida. A correção de conduta que porventura demandem (jogar o lixo na lata certa, fechar a torneira ao se ensaboar) será sempre algo confortavelmente distante do nosso núcleo central de gostos, desejos e amores; e então é possível ser bom sem nenhuma reforma muito profunda do caráter. Outros pecados, contudo, permanecem universalmente condenados há milênios; é o caso da hipocrisia.

Ocorreu, é verdade, uma mudança de definição. Para muitos, hipócrita é quem ousa fazer apelo a uma ordem moral objetiva para condenar o que quer que seja. É uma definição difícil de engolir: levá-la a sério significa, perante um crime hediondo, ver como única reação aceitável o “não julgar”. Ademais, é autocontraditória, pois, ao julgar que é mau julgar, se está julgando. Ainda assim, essa definição capenga preserva algo verdadeiro: a condenação moral é um ato no qual a hipocrisia pode se dar. O dicionário dá conta de defini-la melhor: manifestação de virtude fingida; e uma forma de fingir a virtude é condenar alguém para parecer bom em oposição.

Usando a definição, vemos que muito do que é considerado hipócrita na verdade não é. Assim, condenar um pecado do qual se é culpado não é, de si, hipócrita. Dou um exemplo: Todos nós já mentimos alguma vez, e volta e meia mentimos de novo em casos que consideramos injustificados. Seria hipócrita, então, condenar a mentira? Claro que não. Mais problemático seria quem se recusasse a fazê-lo, justificando assim o próprio vício.

A própria definição do dicionário, entretanto, é imperfeita, e inclui mais do que apenas a verdadeira, odiosa hipocrisia. Nem sempre é hipócrita a tentativa de esconder um vício (o que via de regra implica fingir-se virtuoso); há situações em que é objetivamente bom. Um professor pode ser preguiçoso e querer genuinamente que seus alunos não o sejam. Transparecer seu próprio vício para eles seria um grande obstáculo para esse fim. Sua postura na classe deve ser a de alguém ativo, trabalhador, para encorajar os alunos. Ademais, é agindo como se fôssemos virtuosos que adquirimos, aos poucos, a virtude; um processo cujos primeiros passos podem ser só para manter as aparências (claro, estagnar nesse ponto é botar tudo a perder).

Em geral, o bom exemplo é motivo suficiente para não transparecer para tudo e todos os vícios que se possui; sem falar no dano desnecessário ao próprio nome. A vergonha não chega a ser uma virtude, mas está bem longe da hipocrisia. O sujeito considera ruim um certo vício que possui (se esforça, inclusive, para melhorar), que ele obviamente não sai mostrando por aí; e se se depara com esse pecado sendo cometido, condena-o e dá seus motivos (que são sinceros).

O caso acima finge ter uma virtude que realmente gostaria de ter. Mas e o caso daquele que não quer ser virtuoso? Ou seja, a pessoa que possui um vício, não deseja superá-lo, condena-o publicamente nos outros e ainda por cima finge-se virtuosa, essa certamente é hipócrita? Mesmo essa pode não sê-lo. É só imaginar o caso de um velho autocomplacente que, apesar de tudo, não quer decepcionar os que o admiram. Perdeu a esperança em si, mas ainda nutre alguma pelos que o rodeiam, e detestaria vê-los resvalar pelo mesmo desânimo quanto ao bem do qual ele próprio desistiu (“Sou um caso sem volta; mas meus netos podem ser melhores do que fui.”). Finge ser virtuoso, condena o vício e, embora não queira sair de seu estado (conformou-se), nem por isso é hipócrita.

Estamos chegando perto. Para ser hipócrita, bastaria que a preocupação do sujeito fosse com sua própria aparência enquanto tal, e não enquanto meio para o progresso moral dos netos. Nesse novo caso, o fingir a virtude e condenar o vício não decorrem de nenhuma percepção de que eles constituem um objetivo desejável para si ou para os outros, mas do simples desejo de se engrandecer. Isso é compatível com (e até depende de) uma boa dose de auto-engano: ninguém é aberto consigo mesmo quanto ao amor ao vício e à dissimulação - a percepção clara da própria condição causaria na grande maioria o imediato desejo de mudar. Em alguma medida, o sujeito se considera virtuoso, embora esse juízo próprio decorra da opinião alheia baseada na aparência falsa que ele construiu. Mas o seu verdadeiro desejo não é ser bom: quer, no fundo, apenas aparentá-lo enquanto continua mau; quer a glória devida ao bem sem o bem em si.