Sábado, Novembro 14, 2009

A agressividade vai ao cinema

Andei pensando sobre a violência nos filmes, e por que gostamos dela. Claro que há muitas violências diferentes, geradoras de prazeres diferentes. As violências de um filme catástrofe e um terror slasher não são as mesmas. O que tenho em mente, especificamente, são os filmes de lutas, tiros e ação. Quem não se diverte com o banho de sangue do Kill Bill, ou com o Clint Eastwood metendo bala na cara de bandidos? Isso sem falar nas pancadarias e tiroteios de James Bond, Jason Bourne e Jack Bauer.

Acredito que nosso gosto pela violência na tela tenha a ver com o lado destrutivo da natureza humana. Seria a “pulsão de morte” freudiana? Não sei; prefiro o nome clássico, “apetite irascível”: nossa capacidade de sentir raiva e buscar a superação de algum obstáculo. Não se trata de auto-destruição, voltada para o próprio agente, e sim para algo ou alguém externo que é visto como uma ameaça.

O homem é um animal. A agressividade é parte necessária da vida animal, e sem ela nem estaríamos aqui. É parte constituinte, portanto, da natureza humana. Caçar, lutar, defender-se de predadores e inimigos, são formas de agressividade. Claro, essas práticas podem ser explicadas e justificadas de formas puramente racionais e “frias”, mas o fato é que o homem precisa de mais do que argumentos lógicos para sair do lugar. Precisa de pulsões sensíveis. Todo mundo sabe como é difícil agir sem o auxílio, ou até mesmo contra, os próprios sentimentos e paixões.

Acontece que a vida social impõe custos: controlar a própria agressividade é um deles. Mesmo no âmbito pessoal, quem quer viver à altura de sua natureza verdadeiramente humana, racional, tem que conter muitos impulsos animais que vêm “naturalmente”. Assim, a agressividade na vida humana deve vir sempre adaptada às exigências da boa convivência e da ética. Esportes, competições de todos os tipos, discussões, brincadeiras, piadas; tudo isso tem uma boa dose de agressividade, bem como nosso próprio desejo por justiça (o ultraje, a indignação). Dá uma certa satisfação saber que um criminoso foi punido; às vezes até sonhamos em sermos nós mesmos os agentes dessa punição, especialmente se o dano original foi contra nós.

As exigências sociais, por mais importantes que sejam, carregam sua dose de imperfeições. Pequenas e grandes ofensas passam impunes diariamente. Quem não gostaria de dar um tiro de bazuca no funcionário público que vive para piorar a vida alheia ou no motoboy que chutou seu retrovisor? Ou, mais ainda, no político corrupto e no mega-criminoso cujo poder os mantém longe da prisão? Pois na tela eles recebem o merecido! Um motivo que, creio, leva-nos a gostar de filmes violentos é o desejo reprimido de mandar as restrições sociais às favas e simplesmente obliterar, sem dó, todos os grandes safados e criminosos que se gloriam da própria iniquidade. Em suma, uma revolta contra todas as injustiças e maldades que passam impunes. Clint Eastwood, Charles Bronson, o Rambo, personificam exatamente isso: agentes de uma aterradora, mas justa, punição divina.

Acontece que nossa cultura tem exigido muito mais do que o autocontrole imposto pela ética pessoal e cívica, chegando a condenar toda e qualquer violência, que é identificada à maldade em si. A agressividade inerente ao ser humano virou motivo de vergonha. O autocontrole necessário para se viver bem e harmoniosamente é difícil, mas recompensador; já as demandas exageradas do politicamente correto são apenas sufocantes. Qualquer pensamento, palavra, ou mesmo piada que não se curve aos ídolos do igualitarismo e da equivalência das culturas é banida. A compaixão e a pena, no âmbito meramente sentimental, são elevadas ao grau de virtudes máximas. Até perante o criminoso mais sórdido a reação socialmente esperada é a de pena, a de entender a preciosa individualidade de sua situação e desculpar qualquer delito como se o bandido fosse incapaz de fazer o bem. E é a isso que chamam de perdão. Essa reação melosa e molenga é confundida com o verdadeiro amor, algo muito menos açucarado e mais duro - e, na mesma medida, mais admirável. Tradicionalmente, amar era querer o bem a outra pessoa, mesmo que isso lhe viesse às custas de muitas cacetadas (metafóricas ou não!). E, se o mau se recusasse a mudar de rumo, então para as cucuias com ele.

As loucuras do pacifismo exagerado e do politicamente correto (até o revólver de brinquedo ofende essas sensibilidades) apenas exacerbam nosso gosto por filmes violentos, pois na sala escura do cinema qual ainda podemos ser nós mesmos. Por que as platéias - eu incluso - riam tanto e exultavam de alegria exatamente nas cenas mais ofensivas, machistas e até racistas, de Gran Torino? Racismo enrustido? Sinceramente, não parece ser o caso. A exultação vinha, antes, de ver alguém que não dá a mínima para toda a hipocrisia politicamente correta, para o bom-mocismo postiço que domina as relações sociais. Ali tínhamos um protagonista que ousava ser um homem de verdade, não um ursinho carinhoso.

Contudo, os próprios filmes recentes do Clint Eastwood defendem a tese da violência como um mal absoluto, que destrói interiormente quem a pratica, independentemente de sua motivação e justificativa (até a segunda guerra mundial foi por ele despida de seu contexto moral e reduzida a um ato de violência sem sentido e sem heroísmo). Em Gran Torino, a virada final é genial, e o protagonista abdica da violência privada num contexto em que há uma ordem estabelecida que é a única capaz de solucionar o problema. Mas quem não ficou um pouco decepcionado pela saída pacífica? Lá no fundo da alma, o que todo mundo queria era a brutalização exemplar dos jovens imprestáveis que aterrorizavam a vizinhança. É que esse desejo de fazer justiça, de combater o mal, de superar, conquistar e até destruir os obstáculos, fala mais alto do que o pacifismo oficial.

A agressividade não é má em si; ela se torna má quando é desagregada do resto da natureza humana, quando se torna uma força que não se pauta por nenhuma outra consideração e não se insere numa ordem moral. É errado atacar inocentes, responder com força desproporcional a uma pequena agressão, etc. Mas condenar a agressividade enquanto tal é condenar uma parte da nossa própria natureza, e portanto condenar-nos a uma constante duplicidade, pois nunca deixaremos de ser o que somos. Não há um só político nesse mundo que admita que quer ser eleito porque gosta do poder. É tudo feito pelo “social”. Todo mundo só quer o bem comum, nunca o próprio. Ninguém quer ganhar, todos só querem participar; e ninguém pune, apenas educa. Qual a probabilidade disso ser verdade? Essa duplicidade, essa obrigatoriedade de se distanciar publicamente de qualquer desejo agressivo, competitivo, cansa. Cansa fingir que todo homem desonesto é vítima das circunstâncias, ou envernizar cada ambição pessoal com uma camada de preocupação social. No fundo sabemos que combater o mal, vencer os obstáculos e conquistar os próprios valores são coisas boas. E o cinema nos mostra isso.

Dá prazer alcançar os próprios objetivos; por isso gostamos de vê-lo na tela. Uma Thurman desmembra, com graça e agilidade, dezenas de inimigos; na vida real, uma barbárie revoltante; no cinema, êxtase. Alguém com controle sobre si e sobre o ambiente ao redor, que conquista com facilidade bens árduos e supera com graça obstáculos imponentes, é, creio, a essência do que chamamos “cool”; que é, incidentalmente, a melhor palavra para descrever um filme como Kill Bill, ou um personagem como James Bond. Aprovamos na tela algo que reflete uma parte real e importante (embora não a única) de nossa natureza. A agressividade tem o seu papel na formação de qualquer homem digno do nome.

2 comentários:

Julio disse...

Boa, esse é o Joel que eu conheço! :)

Adriano disse...

"A agressividade tem o seu papel na formação de qualquer homem digno do nome."

Excelente a conclusão.

Mas ainda acho que o caso de Inglourious Basterds é mais complicado e pode indicar fatores psicóticos sublimados nos indivíduos.

É disso que tenho medo. Mesmo porque não acredito que todos sejamos psicopatas em potência, como um Inglourious Basterds faz sua plateia parecer.